Femando Venancio Peixoto da Fonseca Lisboa, Portugal O NASCIMENTO DA LÍNGUA PORTUGUESA Parece que os Lusitanos, habitantes da parte da Perúnsula Ibérica mais ou menos correspondente a Portugal quando da invasáo romana, falavam celta. Se assim for, o latim vulgar suplantou a língua falada na Lusitania, ajudado pelo parentesco que tinha com ela. José Leite de Vasconcelos (1858-1941) chama latim lusitanico a evolu~ó do latim vulgar falado na Lusitania e alterado pela influencia do meio, a partir de 193 a. C., ano de que datamos mais antigos testemunhos históricos das Jutas dos Romanos comos Lusitanos. Estes, a acreditar em Estrabáo, nos primeiros séculas da nossa era, continuavam com os seus rudes hábitos ( cf. José Pedro Machado, Oligens do P011ltgués, Lisboa, 1967). O mais antigo documento latino-portugues, escrito, portanto em latim bárbaro, refere-se a doa~o a igreja de Souselo, é proveniente do mosteiro de Pendurada (Entre Douro e Minho ), está agora no Arquivo Nacional da Torre do Tombo e data de 870. Trata-se, porém, duma cópia da primeira metade do século XII. O documento original latino- bárbaro mais antigo é de 882 e trata da fundac;áo da igreja de Lodosa, no concelho de Vila do Conde. No século IX (tinham já, pois, sucedido as invasóes dos Bárbaros e, posteriormente, dos Árabes), havia ainda coesáo entre os romanc;os da Península, embora o cataláo comec;asse a diferenciar-se. Esistiam entáo, além do árabe e do muito conservador romanc;o moc;arábico (conjunto de dialectos falados no território dos Árabes pelos cristáos, hispanicos sobretudo ), o cataliío, o aragonés, o leonés e o galega-portugués. Escreve D. Carolina Michaelis de Vasconcelos que o reino galega-leones, ou astúrico-galego-leones, formava étnica e linguisticamente urna unidade com os países de Entre Douro e Minho, ou mesmo Minho e Mondego. Só no século X está documentada a existencia do castelhano, e os seus caracteres mais distintivos só comenc;am a registar-se com alguma regularidade por meados do século XI (o reino de Castel a data de 1032). De acordo com Leif Sletsjoe, a cisiío entre o espanhol e o portugués nao é consequéncia da política, mas cOJresponde antes a urna divisiío e diferenciac;iío que tem as suas oligens no período da romanizac;iío ou que, talvez mesmo remonta para além desta época. Durante o domínio árabe em Portugal, que só terminou no século XIII ( em Espanha só dois séculas mais tarde), diz um a:utor árabe que na Península o árabe se mistura comos Galegas (Portugueses e Castelhanos) e os Francos (Aragoneses). Assim se mantém o romanc;o, e a poesiá trovadoresca portuguesa é a prova de que a romanidade náo morrera. Le Gentil nota que o portugues se revela por tal forma independente desde a origem, quando o castelhano ainda náo se tinha imposto, que os M0<;¡árabes falavam um dialecto portugues, o romanc;o moc;arábico, na designac;áao de Leite de Vasconcelos. A circunstancia de a língua portuguesa ser conhecida desde os Moc;árabes explica a difusáo da 115 nossa poesia lírica, cuja época áurea vai de 1245 a 1284 e se denomina alfonsina (de Afonso III de Portugal e Afonso X de Leáo e Castela ). Nao há muito que todas as poesias líricas espanholas eram em galaico-portuguis, dizia um espanhol do século XV. Com efeito os cancioneiros galega-portugueses dos séculas XIII e XN encerram poesias de andaluzes e castelhanos. Há pois grande infiltrac;¡áo do lirismo portugues na Espanha, porque, diz Le Gentil, numa época em que o domínio do castelhano se ia alargando, gostava-se de encontrar formas de falar anteriores a hegemonia de Castela. O dialecto de Lisboa fazia parte do romanc;¡o moc;¡arábico, e nesta cidade nunca deixou de falar-se língua romance. J. P. Machado ere que a influencia arábica no portugues se condiciona ao vocabulário recebido pelos Mo<;¡árabes e ao que destes receberam os Portugueses (Breve História da Lfngua Portuguesa, Lisboa, 1946). O castelhano, antes de su hegemonia, náo abrangia Leáo, onde se falava urna língua mais parecida com a portuguesa, o que facilitaria a irradiacsfio lírica a través dessa província. Em compensacsfio, para o Sul de Portugal só mais tarde o portugues irradiou, paciendo afirmar-se que o Tejo veio a separar dais tipos de dialectos portugueses. Por outro lado, em Espanha houve expansáo tardia do castelhano, quando comenc;¡a a supremacia de Castela sobre Leáo e Navarra. Castela e Leáo só sáo reunidos sobo mesmo ceptro por Afonso VI, de cu jos reinos vieram a fazer parle as terras do Norte de Portugal, até o Tejo. A designacsfio de teJTa portucalense comenc;¡a a aparecer em meados do século XI, proveniente da mais importante povoac;¡áo, Portucale, junto a foz do Douro. O portugues é mais rico de timbres vocálicos que o espanhol: nove vogais orais e cinco nasais, contra cinco orais apenas, além de detongos nasais, inexistentes em castelhano; este, no entanto, é mais claro e tem maior carácter oratório, o que se coaduna com a feicsfio dos dais pavos, inconfundíveis na fala, música, história, costumes, etc. Apesar de certas semelhanc;¡as, as duas línguas irmás sáo nitidamente diferentes nas suas caracteristicas fundamentais. O portugues é por completo autónomo. O espanhol é mais sonoro; o portugues é mais brando, mais velado; as sílabas átonas (e as de acento secundário) atenuam-se ou mesmo desaparecem, sobretudo se contem o chamado e mudo, inexistente no Brasi~ análogo ao {J(t do romeno e ao lb do russo. U m espanhol que conhec;¡a o portugu~s escrito tem grande dificultade em percebe-lo falado, mas a inversa náo é verdadeira, ou seja, um portugues que le o espanhol também o entende oralmente. A ditongacsfio descendente em portugues é urna tendencia para a suavizac;¡áo; a ditongac;¡áo ascendente, em espanhol, é mais enfática. As alterac;¡óes que o latim vulgar sofreu na Hispania tinham-se avolumado cada vez mais, como náo podia deixar de suceder a urna língua entregue a si, devido a falta de disciplina gramatical, que a sustivesse na sua natural evoluc;¡áo, e assim surgiram diferentes falas que, sob a accsfio de modificac;¡óes posteriores e sucessivas, vieram a constituir verdadeiras línguas. Entre essas falas mais ou menos divergentes urnas das outras deve notar-se a galaico-portuguesa, assim denominada porque as divergencias inicialmente entre o portugues e o galega foram quase insensíveis, considerando até muitos investigadores cómo substanciabnente wiiforme a língua proveniente do latim vulgar da Lusitania, desenvolvida nas duas margens do ria Minho. No entanto, havia entre o galega e o 116 portugues algumas particularidades dialectais, que se acentuaram profundamente durante a ldade Média, devido as vicissitudes políticas de Portugal e da Galizia, e deste modo apareceram, por assim dizer, dois idiomas autónomos (o portugués e o galega), incluindo-se certamente na Iíngua portuguesa rnuitos rasgos m0<5árabes, a medida que se ia operando a Reconquista. Na Galiza, por outro lado, passou a haver a influencia da coloniza