Bernhard Poll Universidade de Salzburgo, Austria FRASEOLOGIA PORTUGUESA: ALGUMAS PERSPECTIVAS DE PESQUISA Quando, em 1909, Charles Bally, discípulo de Saussure, publicou o "Traité de Stylis- tique francaise" provavelmente nao vislurnbrava que urn capítulo da sua obra viria a fun- dar urna nova disciplina linguística: os estudos fraseológicos. Sobo título de "Action de l'instinct étymologique et analogique dans l'analyse des locutions composées" consagrou urnas vinte páginas as chamadas locutions fraséologiques. Entendia por este termo grupos usuais de palavras pertencendo a duas categorias: as unidades fraselógicas e as séries fra- seológicasI. Enquanto os elementos das séries apenas sao ligados entre si pelo uso, siléncio profundo, prer;o elevado, multa avultada chamar atenr;ií.o, a última palavra, uma miga/ha de esperanr;a as unidades -como já o sugere o nome- formam urn todo; no plano semantico, isto quer dizer que os formantes nao contribuem para o significado do grupo. Assim nao há re- lacao nenhurna entre o significado de cada componente e o sentido do grupo, e na maioria dos casos, os componentes nao se devem substituir nem por outros de sentido semelhante: esticar o pernil "morrer" *estender o pernil cair como um pato "deixar-se enganar' *troper;ar como um pato Em algumas unidades aparecem palavras que já nao se usam em outros contextos e cujo sentido é por vezes dificil de descrever: sem dizer chus nem bus "nem urna só palavra, nada" (etimología obscura) de lés a lés "de lado a lado" (do ant. fr. lez "lado"< LATU) de cor "de memória" (do lat. COR "coracao") Outro critério é o da equivalencia a urna palavra, que é válido também para urna cate- goria intermédia, as chamadas séries verbais: alcanr;ar vitória - vencer tomar uma decisií.o - decidir dar um passeio - passear. Devemos a Manuel Rodrigues Lapa a aplica~iio a língua portuguesa das teorías de Bally; foi também Lapa que forjou a terminologia portuguesa traduzindo os termos do frances. Veja-se: Lapa 1979, 75-91. Além desta terminologia utilizam-se no portugues também o termo mais geral de locufifo, os derivados do grego idioma (idiotismo, locu~iio idiomática etc.) assim como urna outra tradu~iio do frances, lexia complexa (isto é a /exie complexe de Portier 1967). 177 Desconhecidas praticamente na Europa central, estas ideias serviram, a partir dos anos 30, de base para a constituicao de urna subdisciplina da lexicologia na antiga Uniao Soviética. Os pesquisadores da Europa de leste completaram as teorias do linguista suico e esforcaram-se sobretudo por melhorar a classificacao do inventário fraseológico de vá- rias línguas, nomeadamente do russo, do ingles e .do alemao. Um pouco mais tarde e independentemente das pesquisas realizadas no leste, a lin- guistica transformacional chomskiana fixou a sua atencao nos idioms, tratando do proble- ma da integracao deles num modelo linguístico generativo. A gramática transformacional, que --como sabemos- pretendia ser urna fiel representacao do funcionamento da lingua- gem e da sua acquisicao, esbarra na dificuldade de explicar a producao de frases em que a relacao entre estrutura e sentido se encontra particularmente distorcida. ( cf. W einreich 1969) Foi no quadro da linguistica cognitiva que se conseguiu solucionar este problema; aceitou-se o facto de o léxico, isto é léxico mental, também compreender elementos que se podem formar livremente a partir das regras gramaticais da língua em questao. O que a gramática transformacional e urna parte do estruturalismo europeu (Coseriu) tinham rejei- tado por causa da redundancia e da economia do modelo linguistico, deve fazer parte do léxico porque, só assim, se pode usar a língua corrente. Antes de abordarmos os problemas e correntes actuais da pesquisa no fu:nbito da fra- seologia cabe ainda apresentar a mais recente tentativa feita para conseguir urna adequada descricao do inventário fraseológico, baseada nos resultados acima referidos e que nos servirá de ponto de partida: Em 1982 o germanista alemao (ex-RDA) Wolfgang Fleischer propós urna descricao a partir de tres características fundamentais: Segundo ele, os itens que formam a fraseología de urna língua sao marcados pela lexicaliza~io, pela estabilidade léxico-semantica da sua estrutura assim como pela idiomaticidade do seu sentido. Conforme a co-occurencia ou nao destas tres qualidades distingue-se o centro da periferia do inventário fraseológico. Aplicado primeiro a língua alema, este modelo tem sido utilizado sistematicamente para o frances e recentemente para a língua portuguesa (cf. Hundt 1994 a+ b). A lexicaliza~io É o facto de um grupo de lexemas entrar no léxico. Explica-se a lexicalizacao pela necessidade de criar urna nova unidade de denominacao. A par do empréstimo semantico ou lexical e da formacao de palavras a lexicalizacao de sintagmas é um dos aspectos do enriquecimento do inventário de conceitos. Em fraseología a necessidade de criar novas unidades de denominacao por vezes nao parece óbvia, e assistimos a um perpétuo aumen- to sinonímico, sobretudo no campo das nocoes básicas (morte, sexualidade, crime etc.). Raramente a lexicalizacao se faz sem modificacoes a nível morfológico, fonológico ou morfossintáctico: assimilacao fonológica (água ardente > aguardente), petrificacao da ordem das palavras (sexo fraco e nao *fraco sexo; de carpo e alma e nao *de alma e carpo), mudanca de género gramatical (um caber;a no ar, um unhas de fome). Embora nao baja sempre modificacao a nível do signifiant, é certo que a lexicalizacao está sempre ligada a urna mudanca semantica, quase despercebida em certos casos (a última palavra), 178 mas frequentemente tao marcada que o sentido já nao se pode deduzir da forma (uma pomba sem fe[). Já falámos na distincao entre o léxico como componente do modelo transformacional e o chamado léxico mental que é o conjunto de todas as lexemas de que urn falante dis- poe. Do ponto de vista da linguística cognitiva devem considerar-se "lexicalizadas" tam- bém sintagmas susceptíveis de terem sido formados conforme regras produtivas da gramá- tica: assim, a co-occurrencia de (em) claro com passar a noite é urn aspecto da acurnula- cao desta unidade no léxico mental, ainda que obedeca a urn padrao sincronicamente pro- dutivo ( cf. deixar, passar alg. c. em claro). Lexicalizacao significa reproducao e nao producao criadora; daí outro termo, pro- posto por Coseriu, para designar a fraseologia: discurso repetido. Estabilidade Os adeptos de Chomsky admiraram-se muito da reduzida transformabilidade das lo- cucoes idiomáticas. Embora a maioria delas assurna estruturalmente as mesmas caracte- rísticas que qualquer sintagma livre, nao podem ser sujeitas a transformacoes (morfo-)sin- tácticas: a substituicao de formantes (veja acima), a nominalizacao (misturar alhos com bugalhos > *a mistura de alhos com bugalhos), a transformacao nurna frase relativa ou na voz passiva e os alhos que ele misturou com bugalhos ... ; ? alhos foram misturados com bugalhos ... ) sao algumas das operacoes capazes de causar estranheza. Chafe 1968 deu urna boa explicacao para este fenómeno, alegando que as transfor- macoes apresentam resultados inadmissíveis no caso de elas afectarem componentes que nao esta.o presentes semanticamente. Devemos, porém, relativizar essa característica porque sabemos bem que em contex- tos determinados e com o objectivo de produzir urn efeito especial no leitor quase todas as restriccoes podem ser violadas; entramos aqui no ambito da linguística textual, da estilís- tica e do jogo de palavras. Outro aspecto da estabilidade léxico-semantica, além da chamada transformational deficiency, é o facto de algumas locucoes conservarem camadas mais antigas da língua. Deste fenómeno, que o próprio Bally frisara, já demos uns exemplos. Em línguas cuja sin- taxe sofreu importantes evolucoes diacrónicas observamos também restos de sintaxe mais antiga. É por exemplo o caso do frances sans coup férir (prep. - O - V em vez da ordem actual prep. - V - O). Resultantes da petrificacao das locucoes, estes arcaísmos contri- buem ainda para a estabilidade. Idiomaticidade Um dos princípios fundamentais da semantica é o da composicionalidade. Reza que o sentido de urn enunciado composto se descreve por urna funcao dos sentidos dos elementos em jogo. Vejamos dois exemplos:2 2 A ilust~ao um pouco matemática da estrutura semantica inspira-se de Weinreich 1969. 179 ( 1) grupo líder (2) esticar o pernil sé1 sa1 sé1 sa1 + + sé2 Sé(l+2) saz sa¡ +saz sé2 séx saz sa¡ +saz Em (1), apesar de ser arbitrária a rel3,\:3.o sa - sé, o sentido do composto é inteligível a partir dos componentes. Trata-se de motiv3,\:3.o secundária. (2) é o exemplo de urn enunciado em que esse princípio está suprimido: nenhurn dos elementos contribui para o sentido do grupo: a idiomaticidade é completa. No entanto, existem expressoes em que apenas urn dos elementos sofreu urna mudarn;a ~e sentido; chama-se-lhes locucoes idiomáticas com idiomaticidade parcial. jurar a pés juntos ser recibido com sete pedras na milo apanhar alguém com a boca na botija Ainda que as locucoes idiomáticas carecam. de motivacao no sentido linguístico, existe algo como urna motivacao subjectiva, sobretudo nos casos de metáfora transparente (ex.: ser a gota de água que faz transbordar o copo): a imagem que está na base da locucao serve de suporte e cria no locutor a impressao de que a relacao entre imagem e sentido só pode ser assim. Mas, se nao soubessemos que (estar) com a boca na botija estava relacio-nada com urn acto ilícito ou imoral nao nos parecia tao acertada para designar tal situacao! Além das locucoes idiomáticas há grupos em que a irregularidade (a nao composi- cionalidade) nao provém de urna transposicao semantica (metáfora, metonímia, sinédo- que ): Sinonímia ou antonímia podem ter urn papel relevante: silo e salvo, ao fim e ao cabo (acurnulacao de sinónimos),por tudo e por nada (antónimo arealcar o sentido). *** É suficiente este pequeno passeio pelos problemas gerais da pesquisa fraseológica para apresentar agora tres ramos importantes da actividade científica no funbito da fraseo- logia. Nao se trata de tracar a panorfunica das pesquisas já efectuadas mas sobretudo de apontar campos de accao que as vezes sao terrenos incultos para o lusitanista. Conse- quencia de urna escolha confessadamente subjectiva, frisamos, neste trabalho, os aspectos práticos do tema, nomeadamente a lexicografia, nao dando conta de estudos que tem o objectivo de esclarecer os mecanismos que condicionam as transformacoes de locucoes em textos jomalísticos ou literários, nem da compar3,\:3.o dos inventários fraseológicos das variedades diatópicas do portugues (Portugal/Brasil/P ALOPs). l. Fraseología e lexicografia Qua1 é a funcao de urn dicionário? Para o estrangeiro tal como para o lusófono serve para remediar os defeitos do léxico mental. Do ponto de vista do usuário que tem de fazer urna traducao para a sua língua materna ou que quer simplesmente perceber bem urn texto 180 na língua estrangeira, um bom dicionário desempenha esta funcao se der definic6es acer- tadas das palavras, acompanhadas eventualmente de informacoes sobre o nível de lingua- gem a que pertencem. A situacao do usuário que tenciona redigir um texto na língua estrangeira ou que tra- duz para o idioma que nao é a sua língua materna é diferente porquanto necessita também de informac6es sobre a classe morfossintáctica, a compatibilidade semantica com outras palavras e a valencia - sem falar da ortografia. O que vale para lexemas simples afecta tanto mais as locm;:6es idiomáticas. Juntam- se a essas exigencias as particularidades que discutimos acima; por conseguinte, a descri- cao lexicográfica das locucoes idiomáticas deve abranger também a transformabilidade e a variabilidade morfossintáctica conforme o contexto (cf. Kjrer 1987, 167 ff.). Outras quest6es dificeis de resolver: a forma de base, a integracao na micro-/macro-estrutura dum dicionário (palavra de entrada). Vejamos uns exemplos ilustrativos: Costuma-se aconselhar a estudantes de portugues a utilizacao de dicionários unilin- gues. É o "Dicionário da Língua Portuguesa" (Porto Editora) que goza do privilégio de ser aquele que com maior frequencia se escolhe. A perspectiva de um estudante avancado de um idioma estrangeiro, perante um dicionário unilingue, > 46 (1987), 180-247. Fleischer, Wolfgang: Phraseologie der deutschen Gegenwartssprache. Bibliographisches Institut, Leipzig, 1982. Fraser, Bruce: "Idioms within a Transformational Granunar" In: «Foundations of Language» 6 (1970), 22-42. Gréciano, Gertrud (ed.):Europhras 88. Phraséologie contrastive. Actes du Colloque Inter- national Klingenthal-Strasbourg. Univ. des Sciences Humaines, Strasbourg, 1989. Hausmann, Franz Josef: "Un dictionnaire des collocations est-il possible?" In: «TraLiLi» 17 (1979) 1, 187-195. Hausmann, Franz Josef: "W ortschatzlemen ist Kollokationslemen. Zum Lehren und Lemen franzosischer W ortverbindungen" In: «Praxis des neusprachlichen Unterrichts» 31 (1984) 4, 395-406. Hiiusermann, Jürg: Phraseologie. 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Ugotavlja, da se pravega vira stalne besedne zveze navadno zavedamo, najveckratje ta latinski, veasih paje etimologija nejasna, na primer v zvezi sem dizer chus nem bus, kjer gre seveda tudi za igro glasov, prim. sl. 'ne bu ne mu'. A vtor ugotavlja, da je frazeologem veasih pomensko enakovreden ustreznemu enostavnemu izrazu. DoloCiti sku8a stopnje, ki jih neka besedna zveza mora preiti,da se leksikalizira in potero ustali. Pri tero opozarja na mofoe fonetiene ali tudi morlo- sintaktiene spremembe: cabefa, f., 'glava' proti um cabefa no ar 'vetrogonCic'. Nazadnje predstavlja avtor svojo vizijo enojezienega slovarja, zmeraj z vidika stalnih besednih zvez: tudi v sicer dobrih slovarjih portugalskega jezika ni dovolj kvalifikatorjev, paje potemtakem mogoce, da bo uporabnik (in se posebej tujec) neki izraz imel za stilno neoznacen. Slovar naj bi temeljil na obsefoem korpusu literamih del, pa tudi na easnikarskih in drugih prakticisticnih besedilih. 186